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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Conto - Uma nova história . Parte 3

       Em primeiro momento, pensou em Marina, mas a amiga estaria em um jantar de família, ou seja, estaria impossibilitada de vir a seu socorro.  O desespero e o medo já tomavam conta da menina e, sem estar mais em condições de esperar, resolveu telefonar para Dylan. O telefone chamou três vezes até que o garoto atendesse.
       -Alô? – A voz de Dylan soou questionadora e tranqüila.
       -Dylan, é você?! Ah, mas é claro que sim! O celular é seu, mas que burrice a minha. – Cathy murmurou afobada e nervosa, tanto pelo medo quanto por estar falando com o garoto que gostava.
        -Cathy? Sim. Sou eu. O que houve? Já são onze da noite. – O garoto retrucou curioso e desconfiado.
         -Ah, é uma longa história! – Cathy respirou pesadamente. – Marina insistiu pra que eu assistisse àquele filme o qual eu tanto temo! E acabei cedendo, mas como fui burra, agora essas cenas têm me perturbado de uma forma surreal. Além do mais, estão ocorrendo umas coisas macabras aqui em casa. Não sei explicar, você não acreditaria! Estou quase que desesperada. O que faço? – A menina indagava rapidamente, atropelando algumas palavras.
        - Ei, Cathy, acalme-se. – Dylan pronunciou gentilmente, embora fosse transparente o seu desinteresse. – É só um filme! Tudo isso é apenas imaginação sua. Tente dormir.  – Ele pigarreou. – Agora, realmente, preciso desligar. Fique bem, O.k.?
       -Não, não! Você não está entendendo... – Cathy tentou argumentar.
       -Boa noite, Cathy. – Ele finalizou, desligando o aparelho.
        Estática, Cathy encarou o nada em sua frente, enquanto deixava o telefone escorregar e cair no sofá. Seus olhos encheram-se de lágrimas e então, pousou as mãos no rosto, cobrindo-o. Ela encontrava-se desolada e abandonada. 
          Quanta frieza da parte de Dylan! Como ele pôde? - Perguntava-se a menina, entre soluços e gemidos abafados.
       O ruído do telefone tocando tirou a menina de seus pesares. Cathy levantou o olhar, limpando o rosto molhado com a manga de sua camisa, enquanto esticava o braço para pegar o aparelho.
       -Quem é? – Cathy murmurou rispidamente, embora deixasse transparecer resquícios de medo e tristeza.
       -Alô, Cathy? É você? – A voz na outra linha soou, deixando transparecer seu tom de preocupação. E como não teve resposta, continuou: - Eu liguei para Marina há pouco, procurando por noticias de vocês duas, mas ela havia me dito que, por um imprevisto, ela teve de ir embora.
       -Victor! – Cathy exclamou, com o tom de voz abafado pelos soluços.
       -Ei, você está bem? – Victor perguntou preocupado e desconfortável.
        -Não. Não estou bem, na verdade, estou péssima! E tudo isso por causa de um maldito filme! – Resmungou, mas logo em seguida voltou a chorar.
      -The Shining? Cathy! Não acredito que o assistiu. – O garoto repreendeu a amiga.
       -Ah, Victor. Não é hora para sermões, por favor. – Implorou Cathy. – Eu estou com medo, assustada, desesperada. – Deixou um gemido abafado escapar.
     -Espere. Estou indo para sua casa, mas tente se acalmar enquanto isso. – Victor sugeriu, e logo em seguida desligou o telefone.
       Cathy jogou o aparelho encima do sofá e encolheu-se, abraçando as pernas e apoiando o queixo no joelho. Ela fechou os olhos por um momento e expirou profundamente.
       Victor era o melhor amigo de Cathy desde o jardim de Infância. Os dois eram praticamente inseparáveis até que, na sétima série, Dylan ingressou no colégio dos dois e Cathy não tardou a se apaixonar por ele. E tal sentimento estendeu-se até o segundo ano do ensino médio. Os melhores amigos se distanciaram. Não fora uma separação drástica, mas fora o suficiente para diminuir alguns laços.   
     A campainha soando pela casa acordou Cathy de seus pensamentos, essa saiu em disparada à porta e a abriu bruscamente, deixando a mostra o corpo definido de Victor, cujos cabelos brilhosos e negros reluziam juntamente a seus olhos azuis penetrantes e a seu belo sorriso, que denunciava seus grandes dentes brancos.  A menina abraçou Victor fortemente, enlaçando seus braços ao redor do seu pescoço e apoiando-se na ponta dos pés por o rapaz ser alguns centímetros mais alto.
       -Estou aqui. – Victor murmurou, retribuindo o abraço na mesma intensidade. – Sempre estive.
        Uma brisa gélida percorreu por entre os corpos dos dois, fazendo com que Victor levasse uma Cathy tristonha para dentro. A menina estava em prantos, mas agora o motivo não era bem o mesmo de alguns minutos atrás.
       Sentados lado a lado no sofá, Cathy apoiava sua cabeça no ombro de Victor e esse mantinha seu braço envolto no corpo da garota, enquanto seu polegar massageava delicadamente a mão da amiga em movimentos circulares. Algumas lágrimas ainda escapavam pelos belos olhos verdes de Cathy, que tinham a aparência avermelhada.
      -Porque ainda chora? – Victor perguntou, desviando o olhar para Cathy.
       -Não sei.  – A menina encarou o nada em sua frente. – Estou decepcionada com Dylan, atormentada por um filme e... – Hesitou.
      -Continue. – O garoto incentivou.
       Cathy suspirou, abaixando o olhar e, logo em seguida afastou-se de Victor, sentando-se de uma forma que pudesse fitá-lo, apoiando as mãos no sofá.
       -Victor, porque nos distanciamos? – Ela questionou, fazendo com que o garoto se impressionasse com a pergunta, embora não demonstrasse surpresa.
      -Tem certeza que não sabe? – Victor indagou, arqueando uma sobrancelha.
       -Dylan?
       O garoto assentiu.
      -Mas não há motivos para que tenha sido isso. Você e eu éramos melhores amigos, aliás, ainda somos! Mas não como naquela época. – Argumentou Cathy.
     -Você estava hipnotizada por ele. – Victor indagou tranquilamente, meio conformado. – Só tinha olhos para Dylan. –Pronunciou com desdém. – Mas, embora eu não gostasse desse sujeito, eu não poderia tirar o brilho do seu olhar quando o via. Eu não podia retirar a sua alegria, a sua felicidade por um simples egoísmo meu.
      Cathy estava tão atenta a conversa que não percebeu o rumo que tal conversa estava tomando.
      -Não era egoísmo! – A menina exclamou – Você tinha razão. – Ela diminuiu o tom de sua voz. – Podia ter sido diferente, Victor. – Lamentou-se, abaixando o olhar.
      O garoto pousou uma das mãos no queixo de Cathy, erguendo o seu rosto até que os seus olhos encarassem os dele
      -Pode ser diferente.
       -Como assim? Voltaremos a ser melhores amigos inseparáveis? Continuaremos de onde paramos? – Questionou Cathy, ignorante a situação que se desenrolava ali. – Eu fui tola! Perdemos tantos anos de amizade! Não poderemos recuperar certos momentos perdidos.
      -Cathy. – Calmo, Victor indagou. – Ou podemos começar uma nova história.
       -Não se pode começar uma amizade que já começou. – Cathy tagarelava.
       O garoto balançou a cabeça negativamente, abrindo um pequeno sorriso de lado, enquanto pousava seu dedo nos lábios de Cathy, interrompendo que a amiga continuasse a retrucar diferentes hipóteses.
      -Pare de falar por um momento. – Victor murmurou, enquanto aproximava-se de Cathy e tocava seus lábios nos da amiga, selando um doce beijo.
      Todos os problemas e obstáculos de Cathy foram esquecidos pela mesma naquele momento. Não havia Dylan, filme ou tempo perdido. O momento era aquele.
      Eles se separaram e Victor fitou o sorriso sereno que se formava no rosado e belo rosto de Cathy, fazendo-o retribuir.
     -Porque eu fui tão ingênua? Tão fraca? – A garota questionou, revirando os olhos, mas sem perder o sorriso terno.
     -O destino gosta de nos pregar peças. Ele gosta de nos testar. – Victor pousou a mão no rosto da menina a sua frente, acariciando suas bochechas. – Dylan foi um empecilho, um impasse, um estorvo... – Bufou.
     -Entendemos. – Cathy interrompeu, sorrindo.
     -É só para deixar claro. – Deu de ombros, tentando demonstrar indiferença.
      A menina abaixou o olhar, suspirando.
      -Victor, eu tenho medo. – Ela fitou o garoto. – Eu tenho medo que esse sentimento, seja lá qual for que eu nutro por Dylan, volte a me perturbar.
      -Eu posso fazer você esquecê-lo. – Victor indagou. – Apenas não pode se privar da vida por causa de um amor que talvez nem exista.
      -E se não der certo?
      -Não custa tentar. – Victor abriu um sorriso descarado.

A felicidade pode estar mais perto do que imagina, basta olhar ao seu redor. Não volte sua vida para um amor não-correspondido, porque o amor verdadeiro é composto pela união de duas pessoas que se amam.
(Valéria C.)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Conto - Uma nova história . Parte 2

        Entre gritos e gemidos assustados, Cathy conseguiu sobreviver ao filme, embora ela tenha esperneado como uma criancinha para que Marina desligasse aquela tortura.
        -Eu disse que você não ia morrer! – Marina indagou alegremente, levantando-se da poltrona e espreguiçando-se.
      -Agora danos psicológicos que, provavelmente você me causou... – Cathy bufou, ainda presa a almofada, recusando-se a soltá-la.
      -Quando menos esperar você superará. – Marina seguiu em direção a amiga e, parando em frente a ela, agarrou suas mãos. – Agora vamos. Levante-se desse sofá. – Ela começou a puxá-la, mas Cathy balançou a cabeça negativamente, encostando-se no encosto do sofá. – Um dia você terá que sair desse s... – A fala de Marina fora interrompida pelo toque de seu celular. Ela soltou as mãos da amiga, retirou o objeto barulhento do bolso e encarou a tela. – Espere um pouco. É minha mãe. – Ela levou o celular ao ouvido, seguindo para a cozinha.
      Cathy percorria os olhos pela pequena sala de sua casa. Temerosa e ainda assustada observou sua gatinha deitada em uma almofada ao lado da estante da teve. “Mayu-Pronunciou mentalmente.” Cathy sentiu-se tentada a ir até sua gata, que dormia profundamente, contudo o medo a privara de se locomover. Encarou, então os brilhantes pêlos brancos de seu animal de estimação, enquanto os mesmo esvoaçavam-se devido ao vento que entrara pela janela, desviando das cortinas transparentes.
     -Péssimas noticias. – A voz de Marina soou, seguida de um suspiro, deixando transparecer aborrecimento em seu tom. Cathy, antes entretida em Mayu, fora tirada de seus devaneios e forçada a olhar para a amiga. Marina adentrou a sala, ainda com os olhos no celular, depois voltando-os à Cathy. – Minha mãe me ligou. – Ela revirou os olhos. – Praticamente, obrigando-me a ir a um jantar de família. Parece que não vou dormir aqui hoje. –Bufou – Desculpe-me. Ficará bem?
      - Sem problemas, Marina. – Cathy deu de ombros, enquanto observava a amiga do sofá. – Deixe para outro dia. Apenas não me force a algo que eu não quero novamente. – Ela apertou os lábios, deixando transparecer um pequeno sorriso de lado.
       - Tem certeza? – Marina lançou um olhar desconfiado à Cathy e, ao notar as feições relaxadas da amiga, pegou sua bolsa encima da mesa de centro da sala, colocando-a em um de seus ombros. – Tudo bem. Me liga amanhã. – Ela balançou o celular na direção da amiga, abrindo a porta e adentrando-se na noite, indo embora.

       Cathy encarou a porta, pela qual Marina acabara de sair, deixando sua mente inundar-se de pensamentos. Ela piscou os olhos três vezes e sacudiu a cabeça, expulsando as cenas do filme, que ainda circulavam por sua memória. Jogou a cabeça para trás, fechando os olhos e esvaziando a mente. Encarava o escuro profundo de suas pálpebras, quando um miado, seguido de um chiado, interrompeu seu descanso.
       A menina levantou a cabeça rapidamente, encolhendo-se no sofá e espiando, temerosa, o lugar da onde provinha o ruído. Observou Mayu andando pelo corredor em direção ao seu quarto. Cathy suspirou aliviada e decidira dormir logo. Levantou-se do sofá, deixando a almofada que segurava, desligou o interruptor e, dando passos leves e cautelosos, seguiu a gatinha branca, até que a mesma passou pela pequena brecha da porta entreaberta do quarto.
      Cathy empurrou a porta de madeira, que causara um agudo rangido, deixando a visão do seu quarto a mostra.  Uma brisa gélida atingiu o corpo jovem da menina, trazendo-a arrepios.  “Droga!Deixei a janela aberta de novo.” – Cathy pronunciou mentalmente, cruzando os braços, tentando se aquecer”
       Ela percorreu os olhos pelo cômodo escuro e vazio, e ligou o interruptor, localizado próximo a porta.A luz preencheu o quarto, agora com a presença da gatinha e da menina de cabelos negros. Ainda parada no lugar entre o corredor e o quarto, Cathy voltou o olhar para a passagem a qual acabara de sair, até que seus olhos a levassem à porta do fim do corredor, onde era o quarto de seus pais.
      A menina deixou-se lembrar o quanto aquela casa ficava vazia com as viagens frequentes de seus pais, devido ao cansativo trabalho dos mesmos. Lembrava-se de quando tinha cinco anos e seus pais a presentearam com Mayu para que ela não ficasse tão solitária. Claro, surtiu efeito nos primeiros anos, mas depois com a juventude de Cathy aproximando-se, a gatinha Mayu não conseguia mais suprimir o vazio, que só podia ser preenchido por alguém humano.
      Cathy suspirou pesadamente, abaixando o olhar e voltando-se para o seu quarto. Ela soltou um gemido abafado quando pensara ter visto uma sombra locomover-se próxima a janela. Pousou a mão no peito, este subia e descia rapidamente, devido à sua respiração descompassada proveniente do grande susto.
       A menina seguiu para a janela, andando a espreita, dando passos leves e pequenos. Aproximou-se mais e então, apoiou-se no parapeito da janela, olhando atenta e cautelosa a rua, molhada e escura, escassa de qualquer presença humana. A fraca luz dos portes iluminava apenas pequenos cantos, provocando o aparecimento de beicos e espaços escuros. Cathy percorreu os olhos ao longo da rua até aonde sua visão a permitia.
        Seus pensamentos estavam longínquos, quando fora retirada de seus devaneios ao olhar, pela visão periférica, um vulto locomover-se por suas costas. Olhou de soslaio para trás, congelada e paralisada pelo medo e, se não fosse por Mayu, cujo miado a acordou de seu transe, ela ficaria um bom tempo inerte.
      Cathy voltou o olhar novamente para a paisagem além da janela, antes de fechá-la juntamente a cortina. “Sabia que não deveria ter cedido e assistido aquele filme” –Lamentou-se.
    Após ter desligado o interruptor, seguiu em direção a sua cama que, embora servisse à apenas uma pessoa, era de casal. A menina retirou o edredom, com coloração azul clara, até a metade da cama, onde se deitou, puxando novamente o objeto até que estivesse coberta até o pescoço.  Semicerrou os olhos até que os mesmos fechassem completamente, inundando a sua mente em um profundo escuro, que não demorou a ser substituído por pensamentos e devaneios, além das cenas macabras e horripilantes do filme que acabara de ver, que insistiam em perturbá-la.
     Um ruído agudo e pesado propagou-se pela casa, fazendo Cathy levantar-se apavorada da cama, encolhendo-se no edredom, enquanto o puxava para si e esmagava o tecido com as mãos. Ela esperou um pouco até que, ao menos, suas pernas obedecessem a seus comandos e parassem de tremer. Olhou de relance para o lado, onde observou Mayu em um profundo sono em sua cama confortável, cuja coloração variava em tons claros. As feições da gatinha branca eram tranqüilas, embora fossem enigmáticas. Mas também, era apenas um animal.
      Cathy abaixou o olhar, enquanto respirava pausadamente e então, levantou-se da cama, colocando os pés, protegidos pelas meias brancas, no chão gélido do quarto. Andou lentamente até a porta entreaberta do recinto, permitindo que riscos da luz do corredor adentrassem no cômodo. Ela espiou o corredor vazio, olhando para os dois lados. Confirmando que nada, além dela, estava ali, arriscou-se a andar pela passagem, dirigindo-se, mais uma vez à sala. Dando passos curtos e delicados, Cathy apoiava uma das mãos na parede branca à medida que prosseguia.
       Chegando ao cômodo escuro, a menina não tardara a acender a luz. “Preciso de um pouco de água.” – Aconselhou-se Cathy, lançando um olhar para a cozinha e seguindo em direção ao cômodo. Aproximou-se da grande geladeira prateada e, antes de abri-la, encarou uma foto, sua e de seus pais, pregada na porta. Ela percorreu os dedos pelas bordas da foto e suspirou, logo sacudindo a cabeça e voltando a si. Cathy vasculhou a parte interna da geladeira, observando as garrafas vazias, até que avistou uma jarra de vidro contendo água. A menina pegou o objeto, e em seguida fechou a geladeira, voltando-se então para a bancada, onde encontrou um copo.
          Enquanto inclinava a jarra, deixando a água escorrer para dentro do copo, um forte estrondo propagou-se pela casa, a porta de algum cômodo havia fechado bruscamente. Com o susto, Cathy deixou a jarra escorregar de suas mãos, quebrando ao chocar-se com o chão.
         Não importando-se com os afiados cacos de vidro espalhados pela cozinha, a menina saiu em disparada para a sala, onde, depois de pegar o telefone móvel encima da mesinha, jogou-se no sofá, encolhendo-se, enquanto segurava contra o corpo a almofada que usara anteriormente.
       Cathy tremia ao mesmo tempo em que fazia o telefone sacolejar em sua mão. A sua branca pele estava sem cor, seu rosto estava pálido. Ela encarou o telefone, tentando lembrar-se do número de alguma pessoa útil. [...]
(Valéria C.)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Conto - Uma nova história . Parte 1

      A noite estava bela. Embora ainda fosse cedo, a lua mostrava-se magnífica e brilhante nos céus. As estrelas reluzentes o preenchiam. O clima estava frio, contudo, com um toque ameno e reconfortante.
      -Ah, vamos lá, Cathy! Qual o problema? – Uma voz questionadora e insistente soou.
       Cathy era uma menina ativa e corajosa, porém deixava transparecer seus medos com facilidade. Nervosa, ela andava por entre os móveis da sala, enquanto refletia sobre algo, embora já estivesse decidida.
       -Não quero, Marina! Não adianta! – Cathy murmurou, desviando o olhar a fim de fugir dos olhos reprovadores da amiga, enquanto percorria levemente a mão por entre os longos cabelos negros.
         Marina e Cathy eram melhores amigas desde os três anos de idade. Elas compartilhavam não só os mesmos gostos e o mesmo humor, mas também as duas eram donas de grandes e cintilantes olhos verdes. Marina sempre comentava que preferia muito mais olhos azuis, ela dizia combinar mais com seus loiros cabelos curtos e encaracolados, mas Cathy sempre a repreendia, elogiando-a, dizendo que seus olhos naturais realçavam sua pele albina.
        -Cathy, repita comigo: É só um filme. – Marina revirou os olhos, enquanto suspirava e balançava a cabeça negativamente. – Não era você que se intitulava a corajosa? Ah, vamos! Não quer conquistar Dylan? Olha, ótima chance! – Animada, ela lançou um olhar desafiador à Cathy, que, ao ouvir o nome do menino que gostava há anos, sentiu um calafrio percorrer seu corpo.
        Marina sabia muito bem os artifícios para convencer a amiga, mesmo que muitas vezes se tratassem de golpes sujos. Entretanto, Marina sempre teve como objetivo ajudar a amiga a superar seu medo incoerente por um determinado filme de terror.
       -Sim, marina, eu não possuo tantos medos assim. Mas sempre há a exceção! Você não sabe o quanto eu temo esse filme. – Cathy deixou-se cair esparramada no sofá da sala, encarando o teto, cuja cor, antes branca, tornava-se amarelada, devido à luz da sala.
       -Escute, Cathy. Eu quero ajudá-la. E essa é uma ótima oportunidade! Estamos a sós na casa. Ninguém poderá ouvir seus gritos. – Ela despejou, encarando a amiga e esta devolve um olhar assustado, enquanto colocava-se sentada no sofá. – Tudo bem. Exagerei. Mas tente compreender! Nada vai acontecer. – Ela indagou, tentando encorajar a assustada menina no sofá.
       Cathy encarou o tapete branco felpudo da sala, enquanto ignorava o objeto, já que seus pensamentos estavam em outro lugar. Ela apertou as almofadas amareladas da sala, enquanto fechava os olhos e, antes que pudesse mudar de ideia, despejou:
       -Tudo bem. – Sua voz saiu abafada e ela lançou um olhar furtivo à amiga, que comemorou vitoriosa, dirigindo-se à estante da sala, abrindo a gaveta de DVDs e pegando o objeto, que causara tão prolongado assunto.
     Cathy afundou no sofá, apertando uma almofada contra seu corpo, enquanto observava a amiga ligando o DVD player e, com o controle na mão, seguiu para o interruptor, quando Cathy se pronunciou:
      -Ah, você só pode estar brincando. Você já quer demais! No escuro? De jeito algum! Afaste-se desse interruptor agora!
       -Cathy, me responda qual a graça de assistir um filme de terror com a luz acesa? – Questionou a menina de cabelos loiros, enquanto apontava o controle remoto à amiga, e cruzava os braços.
      - E qual é a graça de forçar a amiga a assistir ao filme que pode levá-la a um ataque fulminante do coração?! – Exclamou Cathy, colocando os pés, cobertos por meias brancas, encima do sofá.
      -Sem exageros, por favor. – Marina franziu a testa e revirou os olhos, pensando em alguma ideia. – O.K. Então, desligamos a luz da sala e deixamos a do corredor acesa, que tal? – Propôs Marina, seguindo para o corredor e ligando o interruptor, logo voltou e desligou o da sala.
      Cathy resmungou baixinho, tornando inaudível aos ouvidos da Amiga. Essa sentou-se na poltrona, ajeitando-se confortável, enquanto colocava os pés encima da mesa de centro da sala e, apontando o controle para a teve, apertou o play.
       A tela escureceu e Cathy encolheu-se mais no sofá, mordiscando de leve a ponta do travesseiro, enquanto cravava as unhas nas extremidades do objeto macio. [...]

(Valéria C.)