sábado, 23 de abril de 2011

“É fascinante o poder que um livro tem de me retirar, temporariamente, da realidade; levando-me para outro mundo.”
“Os livros são o meu refúgio. Eles conseguem acender uma chama de esperança dentro das pessoas, conseguem passar a mensagem de que o mundo ainda tem solução.”
(Valéria Coelho)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Todos precisam de coisas que estão foram do seu alcance, mesmo se forem apenas seus conceitos.

(Valéria Coelho)
As pessoas assemelham-se às estrelas, tornam-se mais belas quando paramos para admirá-las com devida atenção.

(Valéria Coelho)

sábado, 9 de abril de 2011

Memórias de um velho.

Na primeira vez que te vi, percorri meus olhos sedentários pelo seu corpo esguio, onde os longos cabelos loiros e encaracolados recobriam por seus seios fartos.Queria eu clamar por seu nome, mas perdi-me na profundidade de seus olhos azulados, que refulgiam como duas piscinas cristalinas sob um sol ardente. Meu coração pulsa por você e acelera com o melódico tom de sua voz, tão doce, capaz de acalmar a mais horrenda fera e roubar o meu amor. O teu toque gélido me assola; meu corpo deseja o seu, mas sei que de você só terei recordações. Sonho com seu abraço afável, com seu sorriso singelo e com seu perfume de cerejeiras.
Se me fosse concedido um desejo, eu perguntaria porque te tiraram de mim, já que te amo com um amor sem fim.

(Valéria Coelho)

sábado, 2 de abril de 2011

Poço

Esse sentimento.
Essa sensação.

                                      Corrói, mata... Destrói.
É como um poço enegrecido.
Você cai.
No entanto, tenta se salvar
Segurando-se nas paredes escorregadias daquele abismo;
Mas machuca; arranha.
As mãos fraquejam e seu corpo sucumbe
Caindo... caindo...
E mergulhando nas águas gélidas e profundas.
Seus sentidos se esvanecem,
E sua vida é sugada do seu corpo.
Você não tem mais forças,
Mas quer superar.
Quer mostrar para quem te empurrou
O quanto é forte
Ou, talvez,
Você mesmo tenha propiciado sua queda.

(Valéria Coelho)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Os dias atravessam a linha do tempo.
Mergulham em um mar de recordações,
E a destroem,
Deixando apenas uma vaga ilusão de que foram esquecidas.

Meu corpo sucumbe ao tempo
E minha alma cai na eternidade
Condenada a vagar por terras pútridas e esquecidas
À procura de um fiapo de esperança.

Passos secos ecoam como ondas
E a inveja me consome
Por eu não ser capaz de exercer tão ínfimo movimento.
Começo a duvidar até dos poderes da morte.

Diante de tantos encontros e desencontros,
Derrotas e vitórias.
Descobri que a felicidade está presente no lugar mais remoto,
Inalcansável, talvez.
Dentro de nós mesmos.

(Valéria Coelho)

terça-feira, 22 de março de 2011

Tempo.

Proferir as palavras:"Eu esqueci 'aquela' pessoa" pode transparecer um recomeço, uma mentira ou uma ilusão. No entanto, esquecer uma pessoa, aquela pessoa, está no patamar em que a simples menção a torna inválida. Esquecer alguém ocorre de forma lenta, sorrateira e imperceptível. O tempo torna aquela pessoa incapaz de provocar quaisquer alterações em nossa vida, até mesmo, a ínfima ação de pensar que a esquecemos. Sobretudo, as pessoas necessitam afirmar que não estão mais vulneráveis; necessitam comprovar às pessoas, que a assistiram sofrer, que não estão mais a mercê; enquanto, na verdade, tentam comprovar a si mesmas.

(Valéria Coelho)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Fuga

O mundo está se afogando no lixo dos seus próprios habitantes, e esses, forçados, são sugados pelo ralo, deixando um último suspiro de angústia ecoando pelo degradado ecossistema que ainda nos resta. E o aviso paira em torno de todos, no entanto, os humanos, seguindo sua natureza, ignoram; até que o último aviso se torne inútil e a esperança se esvaneça, o mundo sucumbirá.

(Valéria Coelho)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Real ou imaginação?

Se em meus sonhos eu apenas pudesse acariciar-te, roçar-lhe os lábios ou usufruir do seu perfume, eu clamaria pela minha volta à realidade, pois meus ouvidos sucumbiriam sem contemplar o som de sua voz. Meus sonhos, tão infindáveis como um fundo poço repleto de imaginação, não seriam capazes de reproduzir sua perfeição tão imperfeita. Eu não poderia sobreviver ao mundo apenas deleitando-me de um belo e robótico holograma seu.

O mundo é devorador, ameaçador e cruel demais para enfrentarmos sozinhos. No entanto, nos lugares mais sombrios, onde a presença de luz é a mais longinqua possível, nós podemos achar, bem no alto, um estreito caminho, onde no final alguém espera ansiosamente por nós...

(Valéria Coelho)

sexta-feira, 11 de março de 2011

Falsa personalidade.

    As ruas estavam repletas, tanto de homens quanto de mulheres. O lugar era palco de altas conversas, discussões e, até mesmo, reencontros. No entanto, minha atenção estava exclusiva ao som baixo a abafado dos meus passos no asfalto. Absorto em meus pensamentos, quase me passa despercebida aquela grande fila em frente ao museu. As conversas e burburinhos propagavam-se por todo o lado à medida que me aproximava. Ajeitei-me atrás de uma idosa, dona de curtos cabelos grisalhos e pele enrugada, que estava na companhia de uma bela mulher, cuja aparência denunciou seu parentesco com sua companhia.
   Cercado por pessoas desconhecidas e estafantes, aguardei pouco tempo, até que o pesado rangido dos portões de madeira alcançaram meus ouvidos, seguidos de passos apressados e afobados.
    Despreocupado, pousei as mãos em meus bolsos e, dando passos calmos e firmes, desloquei-me pelos corredores fastuosos do museu, sempre atento a algo novo e interessante, ou, simplesmente, desejando encontrar um artigo tão complexo que aguçaria minha curiosidade e meu mais comprimido conhecimento de obras. Tão sorrateiros, meus olhos percorriam cada pintura com grande interesse, enquanto ignoravam a presença de várias pessoas, tornando o ar sufocante. Mas, de qualquer forma, meu vislumbro em relação àquelas artes continuou notório.
     Segui a outro corredor, onde díspares pinturas adornavam as paredes tortuosas e donas de coloração fosca amarelada. Meus olhos, como sempre curiosos, não tardaram a vasculhar cada arte, porém, do mesmo modo, notaram as pessoas ali presentes e suas reações tão divergentes quanto suas expressões.
    Minha atenção focou-se em uma família em frente a um quadro abstrato, tão semelhante a um rascunho ou um rabisco. No entanto, o patriarca admirava a beleza escondida naqueles detalhes, enquanto sua mulher e seus filhos eram donos de grande fastio. No outro lado do recinto, um grupo de alunos enfadados observava uma pintura negra, sem resquícios de outra cor, somente preto. Contudo, sua supervisora demonstrava grande conhecimento sobre obra, mas, na verdade, apenas aparentava o que não era.
    Cansado de um dia de fingimentos, revolvi voltar ao conforto de minha moradia, embora soubesse que amanhã eu presenciaria novamente tanta falsidade. Afinal, são os humanos.
 (Valéria Coelho)

P.s.: No final, acabei postando hoje, o que não era muito provável já que meus estoques de contos estão, realmente, muito escassos. No entanto, hoje recebi minha prova de redação e a ideia de postá-la me perturbou, então, pensei: "Porque não?"
Nada se opôs.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Pequenas alucinações.

      Ondas quebravam na areia avermelhada da praia, onde um garoto franzino contemplava a fastuosa enseada, despertando sentimentos até então comprimidos e rejeitados.
       O garoto de pele alva e expressões tácitas era dono de pensamentos distantes, tão inalcansáveis que nem o mais magnífico dos anjos seria capaz de lê-los ou decifrá-los.
       Noite passada, tivera um sono conturbado. Sonhara com uma bela moça que lhe era desconhecida.Fora tão rápido como flashs, no entanto, guardara o inócuo brilho daqueles olhos azuis, que desfocaram todo o resto do filme,tornando-o apenas um poço de imagens vacilantes.
       Uma estranha aparição emergira das águas pacíficas, contudo, o garoto, sem demonstrar o mais fino risco de perplexidade, formou um sorriso em seus lábios ressecados, enquanto fitava aquela figura, que agora lhe era tão familiar, andando suavemente por sobre as águas em sua direção.
       Um fraco feixe de luz atingira os olhos daquela personificação feminina, ressaltando seus orbes azuis cintilantes, que acenderam uma pequena chama de esperança no garoto.
       A tão familiar figura aproximou-se dele; tão perto que fora capaz de roçar-lhe os lábios.
       Movendo a boca, tão graciosamente que podia assemelhar-se a um melódico canto, ela proferira:
      “O poder de realizar seus sonhos você possui, basta acreditar na mais pura luz”
        E tão repentina quanto surgira, sumiu, deixando para trás apenas um risco etéreo de luz.
(Valéria Coelho)

P.s: Eu redigi esse pequeno "conto" hoje (na sala de aula) no meu tempo livre. Achei interessante postá-lo, não como uma paródia ou um conto com final conclusivo, mas algo reflexivo, no entanto pode gerar díspares explicações.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Secretos pensamentos.

Os sussurros se espalham como ondas de som, me assolando.
Eu tive que fazer isso, não por mim, mas por você.
Guardo seu doce aroma na minha memória junto ao som de sua voz.
São as únicas lembranças que vão me sustentar.
Meu amor continua tão grande quanto sempre foi,
Aumenta cada vez mais, mesmo que a distância se prolongue.
Sabe o quanto é difícil te ver, mas não poder falar com você?
Meu coração aperta, sufoca e eu me perco no caminho
Fecho os olhos, mas sua imagem se forma na minha mente.
“Porque teve de ser assim?”
O ar está sendo pouco para equilibrar-me
Eu preciso de outra fonte de energia,
Mas só pode ser você.
A única coisa que me ergueria agora,
Que me sugaria da escuridão que eu mergulhei.
Sou puxada para baixo, algo insiste para que eu me afogue.
Eu imagino sua mão tocando a minha, salvando-me.
Trazendo-me para cima, onde posso respirar você.
Onde posso deleitar-me de você.
Mas são apenas ilusões, sombras do passado.
Eu me escondo na penumbra da noite, apenas observando.
Tendo a certeza que está bem.
A culpa, afinal, foi toda minha.
Eu não queria que esse sentimento evoluísse.
Mas agora nada posso fazer, apenas implorar
Sussurrar para os céus, para uma força invisível
“Por favor, não me esqueça”

(Valéria Coelho)

Entre amores e conquistas.

“Eu acredito que todas as pessoas são completas, até que apareça aquele alguém especial. Esse alguém tem algo tão bonito e bom para oferecer que depois de provar, você percebe que não pode mais viver sem. Eu também penso que não há aquela “alma gêmea”, e sim milhões de pessoas com pensamentos e personalidades diferentes e que precisam apenas de um momento certo em uma situação definida para, ao conhecer alguém, ter a certeza de que ela é a pessoa certa. Eu, quando tinha a mente ingênua e infantil, lia contos de fadas e histórias de amor verdadeiro e sempre pedia para que eu também encontrasse meu par perfeito. E eu nunca tive a realização disso. Mas então, paradoxalmente, quando eu já havia deixado de acreditar em tais bobagens e começava a pensar que eu iria ficar bem melhor sozinha, você me apareceu como uma luz no fim do túnel. No começo, era uma pequena faísca imperceptível, mas, como em toda combustão, tomou proporções tamanhas e em tão pouco tempo que agora, sem você, me vejo imersa em trevas, que me dão medo e me fazem sentir sua falta.
Sei que cometo erros, que às vezes eu posso te machucar, mas saiba que nunca tive tal intenção afinal, ainda há trechos que tenho que tatear no escuro. Portanto tenha em mente que você é para mim tudo o que eu quero e necessito e obrigada por ter sido minha luz por tanto tempo. Eu te amo demais, Igor :B”
De: Mellanie
Sei que isso é repentino, mas eu queria mudar um pouco e não me restringir só a depoimentos no Orkut :B. Bem, obrigada por esses 5 meses tão bons de namoro e por todo esse ano de amizade sincera. Eu te amo demais Igor.
AAA é e valeu Valéria por dar um espaço nesse teu blog inútil (brincadeirinha) pra sua fêmea :B eu também te amo saoisaioasio q

Contos de um internato: Conto 2

            A localização do internato é um grande mistério. Todos que tentaram fugir ou encontrá-lo acabaram desaparecendo, muitas vezes, por tanto tempo que acabavam esquecidos. Pensara eu, na época em que era um ordeiro estudante, que apenas pais severos mandariam seus filhos para um lugar que não têm o menor conhecimento, ou, deixando me levar pela imaginação, poderia afirmar que esses responsáveis foram enfeitiçados e, assim, forçados a mandar suas crias para um abismo, onde poucos têm a capacidade de sobreviver. 
             O pouco que tenho conhecimento é o fato de ser um lugar isolado e escondido, embora o tamanho seja descomunal. Conjeturo que as terras ao redor são ermas, contudo, como disse anteriormente, a única coisa sólida sobre o internato é justamente não ter nada previsível, compreensível ou estável em relação a ele. Ocupando uma vasta área, essa espelunca se encontra ao centro de uma floresta. Floresta das chuvas, assim ela fora nomeada. A origem e o motivo da escolha da nomeação me são desconhecidos. Entretanto, diante de tantos anos que perambulo por estas áreas amaldiçoadas, posso até afirmar que esse nome fora fixado há quatrocentos anos. O lugar é como um grande labirinto escuro e úmido. Diversas criaturas vivem e sobrevivem naquela floresta. Uivos, pios e rugidos são alguns dentre os vários sons que se propagam pela floresta e, assim, pelo internato também. 
               Em si não é um lugar perigoso, depende da pessoa ou da coisa, do horário... E das intenções.
3 de fevereiro.

A história desse dia é sobre Kevin Collins, um nerd do internato. Sem querer perder muito tempo, protelando sobre as características desse alienado humano,ele tinha cabelos pretos, curtos e espetados, olhos castanhos, pele pálida, espinhas dominando 70% do seu rosto, dentuço, lábios rosados, dono de um corpo franzino e magro e, para finalizar sua aparência bizarra, havia seus óculos redondos com aros pretos.
             Na realidade, Kevin nunca fora nerd, o chamavam assim por causa de sua aparência e por seu comportamento autista. Um de seus hábitos era o de escrever na carteira frases estranhas e inteligíveis.
            O horário de recolher é ás sete da noite, mas em toda a minha estadia nessa miséria, esse horário era desrespeitado por quem quisesse, ou por quem achasse conveniente. Depois das sete, todas as luzes são apagadas e todos os funcionários retiram-se. A ronda noturna no internato pelos alunos é proibida? Se não fosse, não existiria horário de recolher! Ora me compreendam, andar sozinho pelo internato à noite não é uma decisão muito inteligente e, em alguns casos pode ser a última decisão de algum idiota. Mas ninguém não dava a mínima para isso. -Será que eles eram ignorantes assim naturalmente, ou eles se esforçavam?! – Se eles não davam, não seria eu quem daria. Por mim, danem-se. Morram á vontade, contanto que não perturbem meu sossego.  Mas era isso que acontecia, afinal! Aqueles gritos à noite incomodavam e muito! Concentrar-se em algo enquanto gritos frenéticos irrompem pela noite, assolando sua mente, é impossível. O quê eu não daria para que algum deles se engasgasse enquanto estivessem gritando. Seria uma cena adorável.
               O nosso nerd, o Sr. Collins, era um dos alunos retardados que costumavam sair à noite. Por quê? Eu não fazia ideia. Tentar entender mentes, visivelmente perturbadas, de nerds rejeitados pela família não é o meu passatempo. Esse garoto sumia da minha vista ao sair dos terrenos do internato e adentrar na escuridão aterrorizante da floresta das chuvas. Ele parecia um zumbi percorrendo inutilmente as longas extensões desse lugar. E, cá entre nós, eu não vou muito com a cara de zumbis. Nada contra seres mortos-vivos, mas eu não gostava nenhum pouco desses montes de... Sei Lá.
             Estava anoitecendo, faltavam poucos minutos para que o internato se inundasse de zumbis ou retardados extremos perambulando sabe se lá para onde. A única coisa que eu realmente almejava para aquela noite, sinceramente, era o desaparecimento de alguns dessas pestes. Ó não. Não que eu seja tão maligno assim, afinal, eu não estava falando especificamente de morte. Mas me digam o que vocês, meros humanos que gastam seu tempo lendo tais narrações, fariam se parte de sua vida fosse voltada para a espionagem de vidas medíocres cujos donos nada mais são que pequenos seres nessa grande dimensão? Talvez, vocês não entendam, aliás, é muito cedo para entenderem.
            Como eu previra, ou melhor, como era mais óbvio, os alunos estavam saindo da segurança de seus dormitórios para se aventurarem além de seus próprios medos e de suas próprias imaginações. O internato, ás vezes, presenteava alguns desses aventureiros inconseqüentes com memórias e experiências, que nenhum outro humano seria capaz de compreender ou acreditar. Mas fora escolha da peste querer sair quando era logicamente perigoso. O que fazer, não é?
            Avistei aquele nerd passando pelo grande portão de saída. Aquele imbecíl conseguira percorrer todo aquele caminho sem chamar minha atenção. Talvez eu tenha me entretido demais em meus pensamentos.  O não tão inteligente Sr. Collins voltara para aos terrenos do internato. A fim de quê? Eu não fazia a mínima ideia. Esse garoto era estranho e macabro. Ele aproximou-se da velha fonte que ocupava uma pequena área mais afastada do internato. No caminho, esse idiota sem cérebro do Collins andava feito um retardado, sem querer ofender as pessoas retardadas, é claro. Mas o garoto andava tropeçando em tudo, como se a dor não o atingisse de forma alguma. Ele deve ter esbarrado em umas cinco árvores e umas... Cinco mil pedras! Na parte do tornozelo, sua calça estava encharcada de sangue. Enquanto, seu nariz sangrava consideravelmente. O tempo estava frio, a neblina estava espessa e sufocante. Um belo clima para mortes. Kevin começara a tossir freneticamente, bom, eu até preferia que ele fizesse tal movimento, pelo menos o garoto parecia mais vivo, e não um robô sem reações. O coração dele parecia martelar, parecia que saltaria de dentro do próprio corpo. Não sei o que aconteceu naqueles cinco milésimos que esse perdedor passou fora dos terrenos do internato, mas eu queria muito saber, adoraria saber quem foi o feliz desgraçado que provocaria a morte desse nerd imbecil.
              Quanto mais chegava próximo á fonte, o Sr. Collins acelerava o passo ainda mais, como se sua vida dependesse da água imunda da fonte. Seus óculos já haviam sido deixados para trás quando a pouco tropeçara em uma pedra e caíra com tudo no chão. A esta altura, o jovem Kevin já estava com uma aparência bizarra. Seus olhos adquiriram uma coloração avermelhada, refulgiam como duas tochas ardentes. A fonte começara a brilhar à medida que Kevin aproximava-se e, então, sem demonstrar hesitação, ele mergulhara na fonte. Uma forte explosão de poeira formara-se, propagando um forte odor pútrido, enquanto as roupas amarfanhadas do nerd voavam pelos ares, sendo levadas pelo vento juntamente a seus restos mortais. Kevin Collins fora reduzido a pó.
             Admito, diante de tal episódio, que fiquei decepcionado e deveras surpreso. Eu esperava mais! Estava ansioso por algo que me causasse imensa consternação. Mas não, ele somente virou pó. Mas não me conformei, procurei vestígios de algo mais emocionante. Eu tinha esperanças de ter algo profano escondido nas entrelinhas, aguardando para ser descoberto e, assim, deleitar-me de algo esdrúxulo.
            Próxima a fonte, no caminho ensanguentado deixado por Collins, encontrei um colar, dono de uma opulência que me deixara malicioso. Estava recoberto pelo pó de Collins juntamente a seu sangue coagulado, no entanto, tais “adornos” não diminuíram o fastuoso desenho do colar: Uma bela Náiade, descansando sua beleza sobre uma pedra de cristal. Atrás do objeto pomposo estava a inscrição: “Se me perturbares, cometendo um ato ímpeto, com a morte ou a doença lhe matareis e, assim, desaparecerás desse mundo de uma vez.”
          Meus instintos aguçados me fizeram descobrir que os terrenos desse internato eram casa de criaturas incríveis e, pelo jeito, bastante vingativas. Consegui finalmente desmascarar o mistério daquele nerd! No fim, Collins eram realmente um nerd por saber que essa espelunca abrigava Náiades e por descobrir perfeitamente sua localização, o que explica as frases, ou melhor, coordenadas inteligíveis nas carteiras. Mas, por conseguinte, Collins fora muito ambicioso e cometera um ato que enfurecera tais criaturas imponentes, estas, revidando, colocaram o colar sob poder de Kevin, que fora enfeitiçado e, assim, levado a uma morte digna de vingança.
            Bela história no final das contas.
            O que aconteceu com o colar? Eu pensei que seria altamente conveniente eu guardá-lo. Seria um ultraje deixá-lo jogado na grama embolorada do internato.
(Valéria Coelho)

terça-feira, 8 de março de 2011

Contos de um internato: Conto 1


Nota: Esses contos são totalmente diferentes dos postados anteriormente.

1º de fevereiro.

O dia em que as aulas desse lugar repugnante começaram. Não me levem a mal por tal palavreado, no entanto, viver em um lugar indesejado por, digamos, muito tempo, não é a situação que deixa alguém amigável, muito menos gentil ou feliz.
              Uma das poucas coisas que eu tolerava era o primeiro dia de aula. Mesmo que o silêncio das férias fosse tentador, nada se comparava ao fato de ver os novos infelizes que ingressaram na escola, pelo menos, eles tinham a doce mas amarga ilusão que estudariam.
               A presença de veteranos no internato era algo muito raro e escasso. Muitos estudantes não conseguiam passar de ano e, acreditem quando afirmo que o menor problema deles eram as notas.E os felizardos que conseguiam passar nunca mais colocavam seus pés nos terrenos desse lugar, com exceção dos fidalgos cujos pais ignoravam ou rejeitavam, sendo assim, obrigados a voltarem para essa espelunca.
            Os ônibus, lotados de pestes, já entravam enfileirados pelos grandes portões de ferro do internato e, em pouco tempo, o pátio estava cheio de pequenos indesejados.
             Os sentimentos de cada um estavam visíveis em seus olhos juvenis, que demonstravam claramente seus interesses, objetivos, ou puros mimos detestáveis.
            Afastado dos outros, recostado tranquilamente em uma decrépita árvore, cuja madeira se deteriorava com ajuda de cupins altamente eficientes, estava um garoto cujos pensamentos atraíram minha atenção. Ele basicamente era um idiota, ou melhor, era dono de características de um sedutor idiota. Não só psicológicas, mas físicas também. Seus cabelos pretos, que pareciam muito grudentos no caso, e seus olhos de mesma cor, ombros largos e braços relativamente fortes, chamavam a atenção das tolas meninas, apenas fúteis, claro. O que ajudava mais em minha teoria de: “um sedutor idiota cujo cérebro não tinha mais que um neurônio funcionando” Aliás, era impossível não perceber que apenas uma coisa passava por aquela mente: Sexo.
           Pobre menina aquela que acabara de sair de um dos ônibus. Cabelos loiros, olhos castanhos, pele bronzeada, porte médio e um sorriso cativante.Apenas mais uma menina tola que não demoraria a fazer parte da história desse lugar repugnante. Essa menina, Katherine, era perseguida constantemente por aqueles olhos de luxúria, que pertenciam a Paul. Sim. Esse era seu nome.  Ele observava todos os movimentos da jovem menina, mantendo um sorriso cínico e aproveitador estampado em seu rosto, cujas expressões não escondiam suas segundas intenções.
           Em minha opinião, as intenções estavam além das segundas, variando entre terceiras, quartas e assim por diante.
          O primeiro passo daquele idiota sem escrúpulos foi o mais esperado possível. A aproximação. Eu nunca poderia imaginar forma mais imbecil de chegar a alguma garota. Da forma mais inconveniente e previsível, Paul simplesmente finge esbarrar em Katherine, fazendo a mesma derrubar seus pertences. E como em toda história boba de romance, o garoto ajuda a indefesa menina.
          -Desculpe. – Paul balbuciou. Tenho que admitir, ele é um ótimo ator. – Eu não havia visto você. – Ele completou, abrindo um sorriso descarado. Tenho que acrescentar... é um belo mentiroso também.
         -Não se preocupe. – Katherine murmurou. – Você não teve culpa. – Ela completou, juntando suas coisas do chão, sendo ajudada agora por Paul que dava inicio a seu planozinho medíocre.
          O sinal da escola tocou, avisando a presença de todos os alunos em seus respectivos dormitórios. – Femininos e Masculinos. – Paul previu que aquilo atrasaria seu pequeno plano e, com certeza, ele não aguentaria muito tempo, não conseguiria suportar tanto tempo. Ele era um monstro, ou melhor, um aproveitador sem escrúpulos.
        A cada ano, novos alunos se matriculavam nesse internato, eles podem ser qualquer um, ou... Qualquer coisa. É imprescindível saber o fato do total desconhecimento desses alunos, aliás, de alunos e professores. Desde que me recordo o diretor deste lugar miserável nunca fora fã de “enrolações”. O garoto em um ato repentino e desesperado segurou o pulso de Katherine, que já se dirigia para a grande construção principal. As expressões da menina transpareciam desentendimento e desconfiança.
            -Peço desculpas novamente. – Ele murmurou desconsertado, percebendo seu ato precipitado. – Parece que não nos apresentamos. Meu nome é Paul. Paul Oliver.
            -Tudo bem... – Ela respondeu relutante com tal situação. – Eu sou Katherine. Katherine A... – Sua fala foi interrompida pelo sinal, que tocara mais uma vez, alertando os atrasados ou os surdos; ou talvez fora apenas coincidência; sorte.
            -Antes de ir... Poderíamos nos encontrar novamente? – Perguntou Paul, insistente.
           -Acho melhor não. –Katherine murmurou, friamente. – Eu tenho que ir. – Ela acrescentou, soltando-se de Paul e distanciando-se do mesmo.
           Isso não seria o suficiente para se livrar de Paul, principalmente quando este estava tão revigorado nesse novo espaço. O ódio e a maldade começavam a tomar conta daquele idiota. Suas expressões transpareciam características assustadoras, psicopatas. Olhando Katherine ir ao longe, Paul soltou uma pequena risada cujo som era o mais maligno possível.
          Pobre Katherine.
       
           Devo ressaltar, nesse momento, que durante a noite os corredores ficavam totalmente a mercê. Não havia monitores, muito menos vigias, até porque, os antigos nunca foram encontrados, e os que, por sorte, foram... Bom, não estavam muito vivos, literalmente.
          A escuridão daqueles corredores estreitos e íngremes propagava-se por todos os lados, tendo apenas riscos da luz da lua iluminando pequenos cantos. Por vários anos aqueles corredores foram testemunhas de episódios que nem eu seria capaz de narrá-los, ou até mesmo, lembrá-los. Não se ouvia nenhum ruído, apenas sons de animais e de pegadas. A quem pertenciam essas pegadas? Vocês irão descobrir, por enquanto quero mantê-los racionais.
          O dormitório feminino estava calmo, tranqüilo, sendo inundado pelas respirações compassadas das ingênuas meninas, com exceção de Katherine, que encontrava-se inquieta naquela noite. Depois de tentativas frustradas de pegar no sono, resolvera buscar um copo d’água. Ela saiu, discretamente, do seu quarto, o 202, dando passou pequenos e leves, levando consigo uma lanterna para que conseguisse enxergar naquela escuridão.
           Coisas inesperadas aconteciam com frequência nesse internato. O motivo? Eu nunca descobri, aliás, ninguém nunca descobriu. Pode parecer sem nexo e incoerente, além de bizarro, mas devo ressaltar que esses adjetivos significam apenas meros elogios, quando relacionados a esta espelunca.
           Gritos abafados eram ouvidos, aliás, acho que eu era o único que os ouvia. O ruído desesperado provinha do armário de vassouras do corredor 21. Os primeiros nomes que devem ter imaginado como as “personagens” desse episódio foram Katherine e Paul, logicamente ela como a vítima e, ele, como o agressor. Não estou contrariando, afirmando ou negando esses fatos, só lhes aviso que nada relacionado a esse lugar é compreensível.
          Qual o final da história?
          Sinto-lhes informar que durante esse pequeno episódio, eu devo ter me distraído com outro assunto, ou outra coisa; o que causou minha perda do término desse episódio. Eu realmente estou me sentindo um belo retardado com isso.

            Dia seguinte, tempo ensolarado, céu azul e limpo, temperatura amena. Um dia normal?
           Nem nos sonhos mais otimistas.
           Esse clima não era nada normal no internato. No entanto, os alunos adoravam dias assim, por serem meros ingênuos e tolos. Era visível o sorriso estampado no rosto de alguns alunos que passeavam pelo jardim aos arredores da grande construção principal, cujas paredes eram velhas e desgastadas, deviam ser do século XIX. Muitos achariam uma construção magnífica, e ficariam horas admirando tal arquitetura, mas eu apenas acho um monte de lixo, nada que uma demolição não resolvesse.
           Os alunos, que se encontravam na entrada, estavam tão dispersos em suas atividades inúteis que não perceberam a presença de um alto homem com idade avançada, cabelos grisalhos e pele enrugada que realçavam sua idade. Ele carregava dois grandes sacos pretos, enquanto suas feições eram sérias e assustadoras. Se não me engano, esse tal homem era Joseph, mais especificamente, o jardineiro do internato, mas essa era apenas uma das muitas tarefas que ele tinha de cumprir. Qual o seu sobrenome? Não interessa, e eu mesmo não sabia; não me importava com detalhes, pelo menos, não esses. Joseph trabalhava há muito tempo no internato. Ninguém nunca soube sua idade, ou melhor, ninguém nunca soube algo relacionado a ele; alguns alunos fúteis nem percebiam sua presença, e outros, não tinham interesse em descobrir. Joseph seguiu para o portão e depositou os sacos na calçada, depois saiu para cumprir seus afazeres, sejam lá quais fossem. Admito que, um imenso sentimento curioso surgiu em mim. A minha vontade de violar aqueles sacos fez com que eu fizesse tal coisa, apesar de já saber o conteúdo.
               Qual era o conteúdo?
               Não fora muito difícil de descobrir, o sangue coagulado presente em cantos estratégicos dos sacos denunciaram rapidamente o conteúdo.
              Membros de um corpo, que, em minha opinião, eram donos de uma aparência fatídica. Algum felizardo fora esquartejado e seus pedaços, jogados em dois grandes sacos sujos.  Devo admitir que, fora um choque e tanto olhar aqueles sacos. Não. Não pelo fato dos membros ensanguentados, isso é natural de se ver. Mas sim pelo fato daqueles pedaços não pertencerem à pessoa que eu imaginava e, que era mais obvia.  Sim. Não. Não sei. Dessa vez não faço ideia do que estão pensando. O corpo dilacerado não era de Katherine, e sim de Paul. Não me perguntem como eu descobri isso. Foi nojento!Simplesmente tive uma visão muito forte para se ter em um começo de dia.
               Avistei Katherine na entrada do prédio na companhia das que deviam ser suas amigas. Um sorriso inocente estava estampado naquele rosto cínico. Uma vadia assassina, quem diria? Não sei como essa garota conseguiu matar Paul de uma forma tão brilhante, mas o fato agora era que o internato tinha a presença de uma mais nova assassina. Bom, eu disse que ela faria parte das histórias dessa espelunca, só não especifiquei em qual papel ela agiria.

(Valéria Coelho)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Contos de um internato: Prólogo.

              É realmente sugestivo estudar em um internato. Principalmente, se for um totalmente isolado e esquecido pela sociedade. Um lugar repleto de mistérios, sendo frequentado por jovens, alguns tolos e ingênuos e outros... Bom... Nem tanto. Também, Há os esquisitos e os considerados invisíveis, mas todos com os hormônios a flor da pele. Os professores... Ah sim, Os professores. Em minha opinião, os mais interessantes. Não. Não era por causa de suas aulas nem pelo método de seu ensino. De todas as idades,de todos os jeitos e com pensamentos diferentes; eles faziam as noites  mais divertidas. Bom, isso é outra história, não demorará muito até que eu conte algo sobre isso.
               Quem sou eu? Bom, Não interessa. De onde eu vim? Muito menos. E qual o meu objetivo narrando isso? Descubram vocês mesmos. Talvez, em algum momento meu de demência e distração, vocês acabem descobrindo sentimentos, assuntos ou fatos pessoais relacionados a mim, mas lembrem-se de que nenhum deles lhes interessa e, certamente, alguns de vocês possam vir a ficar confusos e duvidosos ou, até mesmo desconfiados em relação a mim; no entanto, de qualquer forma, eu pouco me importo com a opinião de vocês. Aliás, eu nunca lhes dei motivos para confiança. Se vocês ainda quiserem ler os fatos aqui narrados por mim, sintam-se a vontade, mas aviso que não serei responsável por nenhum dano físico ou psicológico ocorrido ao decorrer de minha narração.

(Valéria Coelho)

domingo, 6 de março de 2011

Para sempre.

       O tempo estava ameno, embora os raios solares, de vez em quando, se mostrassem ardentes e intensos. Lembro-me que estava nervoso, mas não impaciente. Meus pés rebatiam no chão, fazendo um barulho irritante, demonstrando, visivelmente, minha inquietação. Devo ter levantando muitas vezes do banco de madeira do parque, pondo-me, em seguida, a andar pelas extensões do lugar, sempre à procura de algo para me distrair, ou, ao menos, me acalmar.
      Passei horas esperando até que fitasse ao longe, vindo em minha direção, uma figura feminina, cujos longos cabelos ondulados estendiam-se por sobre os seios, escondendo boa parte dos mesmos. Seu andar era leve, dono de passos curtos, mas temerosos. Seus braços entrelaçados, junto ao seu olhar, baixo e envergonhado, demonstravam sua imensa timidez.
      Aquele jeito singelo me agradava, não demorara até que um largo sorriso se sobrepusesse em meu rosto. Caminhei na direção de minha esperada companhia, para que pudesse usufruir mais tempo ao seu lado. À medida que eu me aproximava, era impossível não perceber como aquela pele macia e branquinha realçava com um simples risco de luz solar, que brilhava, tornando-a pálida.
        Finalmente a alcancei e pude deleitar-me de tanta candura. Afinal, era isso que eu mais admirava em Maria. Seu poder de propagar paz com apenas sua presença, com um olhar, com um sorriso... e, para mim, com apenas o som baixo e doce da sua respiração.
       Não me glorifico por meu passado. Não fora um dos melhores. Eu não era uma pessoa boa, muito menos gentil, pelo menos, até conhecer ela, a dona de meus sonhos, da minha mente, do meu coração... a minha dona, ou... até partir seu coração de forma repugnante.
       Entrelacei meus dedos nos de minha amada, enquanto encarava aquele sorriso reconfortador que se formava em seu rosto.
      Naquele momento, eu podia afirmar.
      Eu tinha certeza.
      Eu era o homem mais feliz do mundo.

     Lágrimas transbordam de meus olhos e ocupam meu rosto com essas lembranças.
     Não por eu não ser homem o bastante para ser forte e aguentar tudo, mas eu sou homem o suficiente para sofrer por isso, por ter perdido a única coisa que me sustentou do modo mais puro e revigorante, em toda minha vida.

    Era 11 de setembro quando aconteceu. Maria viajara para o interior de sua avó, pois essa estava enferma, dona de uma grave doença, a qual não tenho conhecimento. E Maria, claro, com todo seu amor, não deixaria sua avó ao relento sem seus cuidados.
     E, assim, Maria se foi, deixando-me sozinho, apenas com a lembrança do seu suave perfume de cerejeiras, que ficara impregnado em minha roupa ao darmos nosso último abraço. Não soubera eu, que esse abraço, realmente, seria o último.
     Fazia algumas horas desde que minha amada viajara e, estava eu, esparramado em meu sofá, encarando teto, ao mesmo tempo em que minha mente se inundava com os mais variados pensamentos e devaneios, e todos estes, por mais aleatórios que fossem, sempre mencionavam minha eterna Maria.
      Duas batidas soaram por minha casa, libertando-me de meu estado inerte. Levantei, meio atordoado, em direção à porta de carvalho e a abri, logo deixando à mostra uma pessoa inesperada, Sophie.
     -Quanto tempo. – Pronunciou aquela figura esguia, não se preocupando em esconder o sorriso malicioso de sua face. – Posso entrar?
    Simples palavras, mas que se tornaram tão repugnantes e cheias de cinismo.
    Eu poderia ter recusado.
    Eu devia ter recusado.
    Mas não o fiz.
 
    Aquela noite, eu cometi o pecado, que era tão comum em meu passado. Aquela garota, Sophie, seduziu-me de uma forma diabólica. E meu deu, o que, certamente, Maria nunca me daria, ou nunca teria coragem para dar.
    Senti-me enojado como nunca me sentira. Eu era dono de um nojo imenso por mim mesmo. Como eu pude?

      A notícia correu tão rápida como raio. Não demorou até que chegasse aos ouvidos de Maria. As suas expressões até hoje me assolam. Meu coração apertou e perdi o fôlego quando fitei tanta morbidez e tristeza no rosto de minha amada. E eu nem tinha o direito de sentir isso, já que fora eu mesmo que causara tal sofrimento.
     Todos começaram a me odiar com todas as forças possíveis, e eu não os culpava. Estavam totalmente certos. Desde aquele dia, Maria nunca mais falara comigo e eu mesmo não era dono de coragem suficiente para falar com ela. Eu não sou tão ignorante a esse ponto.

   Passados dois meses, eu estou aqui, naquele mesmo parque, onde tive a certeza que Maria era minha vida. E, agora, apesar de tudo que causei a minha amada, tenho a absoluta certeza que ainda a amo como nunca amei algo.
     Eu encarava a calçada gélida e cinzenta do parque, enquanto brincava com meus dedos, quando passos leves soaram por toda parte. Relutante, levantei meu olhar e deparei-me com a figura que menos esperava ver naquela hora, ou melhor, que não esperava mais ver.
   Maria aproximou-se de mim, com expressões tão serenas que, involuntariamente, um sorriso formou-se em meus lábios. Segui em sua direção e parei juntamente a ela.
   -Eu queria falar com você. – A voz calma e doce de Maria atingiu meus ouvidos, reconfortando-me.
   -O que você quiser. – Respondi, abobado com a visão daquele sorriso.
   Ela suspirou.
   -Eu sei que tem sido difícil... Não só para mim, mas para você também. – Ela fechou os olhos, dando a impressão de repassar um diálogo em sua mente. – Não quero que esse fato nos impeça de continuar nossas vidas. – Ela me encarou. – Eu te conheço o suficiente para reconhecer que está com a consciência pesada...
     -Maria... – Meu tom de voz saiu abafado e temeroso.
     -Eu quero livrar-lhe desse fardo. – Ela esboçou um sorriso. Mas não somente um sorriso, fora um sincero e decidido. – Esqueça o que aconteceu. Siga sua vida.
     -Você está me perdoando? – Hesitei. – É isso?
     Ela assentiu e, lançando-me um último olhar e um último sorriso, virou-se e seguiu pelo caminho de onde viera.
    E encarando-a. Encarando aquela figura, dona de todo o meu amor, eu tive, dentre tantas as certezas que eu tive ao conhecer ela...
      Que eu a perdi...
                                                                    Para sempre.

Quando Maria finalmente conseguiu livrar-se da dor que o amado lhe causou, ela também conseguiu livrar-se do amor que nutria pelo mesmo.

(Valéria Coelho)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Valor.

Eu espero que isso acabe. Essa coisa que eu sinto. Não por eu repulsar, mas pelo fato de que não posso sustentar algo que me traga dor, tristeza, algo assim. Todos me dizem que vai acabar, que no momento certo esse sentimento vai se esvair, deixando apenas uma vaga lembrança, tão distante que não poderá ser resgatada. Mas será que isso mesmo vai acontecer? Que isso deve ser assim? Pensar dessa forma é doloroso, porque significa um pequeno fiapo de esperança, que continua ali, junto àquela vestimenta, mas a qualquer minuto, a qualquer segundo, temos que cortá-lo. Temos que retirá-lo, porque ele incomoda, perturba, então, o melhor é simplesmente deixá-lo ir. Eu não queria que fosse assim, mas não sou eu que comando as coisas por aqui, simplesmente pelo fato que essa decisão não engloba somente a mim. É difícil. É inevitável.
Mas quem sabe se esse amor eterno, que várias pessoas hoje em dia dizem nutrir por alguém, é mesmo real? Hoje em dia, esse tão valorizado e, ao mesmo tempo, difamado amor eterno não dura mais que quatro meses. É assim mesmo.  As pessoas ainda não são capazes de saber o que querem. Elas simplesmente acham difícil demais e então largam de mão. Mas, afinal, quem quer dificuldade na vida? O fato é que se não houver obstáculos, não há vida. Ponto. Comecemos daqui então. Comecemos criando força para superá-los, porque eles não vão ser destruídos sozinhos. Garanto.
Hoje me pergunto por que eu escrevo. Posso redigir os mais belos e convincentes argumentos, mas não o bastante para mudar a opinião de alguém. E não quero mudar. Aperfeiçoar. Sim. Talvez, essa seja a palavra correta. Entretanto, eu não escrevo esses textos para expor, eu os crio para mim. Se servir para os outros,então é ótimo, não é?
Se as pessoas começassem a dar valor às coisas certas, talvez fosse diferente.
(Valéria C.)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Desordem.

Dentre as muitas coisas que eu não entendo, a que está mais me incomodando é sua bipolaridade mórbida. Um dia, você está “o amor de pessoa”, outro você foi possuído pela ignorância, indiferença e arrogância. Não posso condenar aqueles bipolares, porque, de qualquer forma, eu também sou, entretanto, você tem se tornado um mistério indecifrável. Ah, vamos lá, espero que você não tenha a triste ilusão que eu sempre estarei aqui. Eu sou mais difícil do que você nunca imaginou. Não tente correr atrás do prejuízo, quando o estrago já estiver feito. Suas desculpas podem até funcionar agora, porém, depois, elas não vão valer nem para o começo.
(Valéria C.)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Constatação.


Os sonhos me perturbavam. Era uma perseguição em minha própria cama. Eu revirava de um lado para outro, ofegando, enquanto gotas de suor se formavam em minhas têmporas e percorriam pelo meu rosto até o meu pescoço. Àquela altura, eu já não sabia distinguir o real da alucinação. Antes de dormir, ou, pelo menos, deitar em minha cama e encarar o vazio, inundando minha mente de coisas vagas, eu deixara aberta a janela do meu quarto. Mas eu não me incomodava com o calor, eu apenas queria sentir aquelas correntes de ar solitárias e lutuosas acariciando minha pele, mesmo que, muitas vezes, elas recostassem de forma agressiva, tornando-se ásperas e cortantes. Aquela torturante noite se estendeu de forma inacreditável. O tempo não passava, os segundos pareciam se arrastar, como se algo os puxassem de volta para o passado, como se algo os sugassem. Eu queria acordar e fugir daquela perseguição mental, mas a realidade me assustava mais. Enfrentar aquela noite acordada e encarar aquela escuridão amedrontadora e isoladora, tendo como companhia apenas as sombras e uma fértil imaginação inútil, era torturante demais. Eu sei que os acontecimentos desse plano real são concretos e irreversíveis. Agora, eu estou entre um medo incoerente por meus dois mundos. Meus dois trágicos e sofredores mundos.
Acordei finalmente, enquanto a luz rala do sol adentrava o meu quarto, denunciando minhas expressões desgastadas e mórbidas. As imagens dos meus sonhos pareciam me assolar até agora, trazendo para a realidade a dor psicológica. Cada parte do meu corpo doía, cada osso estava debilitado. Talvez, eu estivesse doente. Encolhi-me na cama, virando-me na direção da janela, enquanto abraçava minhas pernas e fitava o céu nublado e escuro que se formava no horizonte.
A sensação de acordar sozinha corroe, queima, arde. Sentir-se solitária e isolada nesse mundo não é algo humano. Dói profundamente, como se nossa alma tivesse sido pisoteada, cremada ou esquartejada, ou melhor, como se não usufruíssemos mais de alma. Olhar para o lado à procura de uma figura paterna e materna, vasculhando o cômodo atrás de algum amigo ou irmão ou, até mesmo, tendo a doce, mas amarga ilusão de encontrar um amor.
Entretanto, não havia nada. Minha imaginação não era capaz de tornar reais meus hologramas.
Eu nunca me senti especial, como se minha existência sustentasse outras. Como se alguém esperasse ansiosamente para me ver, para conversar comigo. Como se meu sorriso ou minhas palavras fossem capazes de reconfortar alguém. Como se minha presença valesse algo. Como se minha simples respiração fosse capaz de formar um sorriso nos lábios de outra pessoa.
Eu nunca me senti única.
Eu apenas me deleitava da minha vaga presença.
Eu estava viva. É o que importa, afinal, não é? Mas, alguém me responda, o que adianta ter essa dádiva da vida se não é necessária, se não é usada, se não é idolatrada?
Eu não escolhi estar sozinha.
Eu não tive opção.
Mas, eu tive culpa.
Faz sentido? Não há porque ficar remoendo isso.
Hoje, como eu desejo brigar com meus pais; implicar com meus irmãos; discutir com meus amigos; tirar uma nota ruim e sofrer por um amor. Por que são essas coisas que puxam o ser - humano para a realidade, isso que os fazem se sentir vivos ou, até mesmo, necessários.
O que aconteceu comigo agora não importa mais. Não importa relatar os acontecimentos, porque, no final, só traria mais dor. Eu só transportaria para o papel o meu sofrimento. Entretanto, aqui estou, forçando-me a narrar isso para que as pessoas aprendam a dar valor às coisas que realmente importam, às coisas mínimas, mas que fazem toda a diferença.
(Valeria C.)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Águas e Lágrimas

    Sob o céu nublado, o vento passeava bruscamente, exaltando a grama e as folhas das árvores, assim como os longos cabelos loiros de Lucy, que em certos momentos recaíam sobre a face bronzeada da garota, inclinada levemente para baixo. Seus olhos esfumaçados estavam prestes a fechar, sem brilho. As feições delicadas da menina estavam relaxadas, sem esboçar sorriso algum. O tempo frio tornava as correntes de ar gélidas, que, ao atingirem o corpo magro de Lucy, causavam pequenos arrepios na menina, fazendo os pelos de seus braços eriçarem. A garota caminhava lentamente pela grama verdinha, enquanto uma toalha branca apoiava-se em seu ombro direito, seguindo em direção à piscina. O seu maiô preto dava um ar triste ao momento, tornando-o mais doloroso a Lucy. Ela aguentara muito tempo antes de se encontrar sozinha. Ela precisava desse tempo, aliás, ela precisava de tantas coisas, que a simples menção em necessidade a causava arrepios. Lucy não sabia ao certo o que estava sentindo, mas não gostava de ter tais sensações. Não fazia muito tempo que se mudara, estava alegre e feliz, embora tivesse deixado belos e eternos amigos na antiga cidade. Entretanto, estava aqui para mudar de vida, seguir um novo caminho.
   Era uma menina nova, cheia de sonhos e aspirações. Pelo menos, até agora tinha se dedicado ao máximo em conquistá-los, mas não era fácil, nada era. Ela sabia que a vida não a entregaria de bandeja, mas também não tinha o conhecimento que seria tão sofrido e mórbido. Dentre tantos acontecimentos que a fizeram fraquejar e ter pensamentos desistentes, ela estava cheia, sua cabeça era possuidora de tantos problemas e questionamentos. Isso a estava enlouquecendo. Queria se livrar de pelo menos um desses fatores, da dúvida que assolara seu sono desde o seu segundo dia de aula. O quanto difícil seria contar a alguém sobre seus sentimentos? Lucy não sabia. Nunca havia feito tal coisa, aliás, nunca tinha gostado realmente de alguém. Esse sentimento era tão novo, tão estranho, tão egoísta. Ela não o queria, não daquele jeito. Se pudesse expulsá-lo, com certeza o faria. Mas nada podia rebater, não controlava essas emoções involuntárias que agiam sem o consentimento de sua razão, de ser cérebro.
   Esta manhã, acordara desolada e cansada. Estava no limite, não aguentava tudo guardado. Chegara na escola tão desarrumada, com olheiras profundas e, ao observar ao longe, no corredor, aquele que tanto pensara nos últimos dias, não relutara em seguir em sua direção e despejar tudo que sentia, que sofria, que estava cheia. Depois de praticamente enxotar as palavras de sua boca, Lucy encarou o garoto, que a lançou um olhar tão errático, tão opressor. Era um misto de sensações ruins. Esse olhar provocou na garota o mesmo que uma adaga afiada penetrada com força no coração dela provocaria.
 Lucy teve de enfrentar horários e mais horários torturosos até que estivesse de volta a sua casa, a seu refúgio. E, agora estava ela, ansiando um mergulho na água gelada de sua piscina.
   Retirou a branca toalha de seu ombro, lançou contra a cadeira e a virou-se, encarando aquelas águas paradas e azuis resplandecentes. Aproximou-se da borda até que a metade de seus pés estivesse pairando sobre a água e a outra metade, apoiada no mármore da borda. E levando a ponta dos dedos da mão até os do pé, inclinou-se, dando um impulso e mergulhando piscina adentro, propagando um som pesado e leve. Passara certo tempo imersa até que subira a superfície em busca de ar, deixando os pingos de água percorrerem o perfeito contorno de seu rosto.
    Lucy passara o resto da tarde em seu recanto. E vez ou outra, mergulhava tão fundo, que seus soluços e gemidos eram abafados pela forte pressão da água. Ela estava liberando suas magóas, suas lamúrias. Estava desabafando, misturando suas lágrimas às águas da piscina. Depois dali, estaria limpa, renovada. Era hora de um novo começo.
(Valéria C.)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

E quando eu me sentir vazia, desolada, triste, estranha... Eu queria ter, ao menos, a certeza de que sempre poderei contar com você. Queria poder te abraçar. Sentir o calor do seu corpo contagiando o meu. Sentir sua respiração quente e reconfortante na minha nuca. Sentir seus braços protegendo-me de qualquer coisa, do mundo, talvez. Sentir como meu corpo reage com tanta proximidade. Mas, afinal, porque eu quero isso? Porque você é a única pessoa capaz de me trazer essas sensações. A pessoa que me motiva; a pessoa que, apesar de tudo, continua sempre viva, firme e forte nos meus pensamentos. A pessoa que eu tanto relutei em amar, mas meu coração insiste em guardar.
(Valéria C.)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Eu não odeio ninguém. Aliás, é difícil eu odiar alguma coisa. Contudo, sempre há exceção. Eu odeio quando alguém fere meu amigo, mesmo que esse alguém signifique muito para ele. Odeio quando nunca consigo fazer nada para ajudar, me sinto inválida, inútil, talvez.  Enfim, não odeio coisas materiais. Mas, odeio ter de odiar tantas sensações. Porém, quando alguém mexe com uma pessoa que eu amo. Desculpe-me. O ódio vira um elogio.

Não adianta tentar. As pessoas mudam. E nem sempre podemos reaver os momentos antigos, os velhos hábitos, as conversas engraçadas e singelas e a bela e reconfortante amizade. Podemos até continuar amigos, mas no final das contas, não foi a amizade eterna que tanto dizíamos ser. E hoje, somos apenas alguns dentre as tantas pessoas ao nosso redor, sem aquela importância passada.
(Valéria C.)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Respostas.

Não pensei nada que pudesse tornar essa situação pior, mas simplesmente a vida entra e cumpre esse dever. Sempre haverá obstáculos e recaídas, disso eu sei, mas quando acabarão? Essa rotina incessante. Esse ciclo vicioso repugnante. Essa felicidade tão almejada recompensará tanto esforço, tanto sofrimento, tanta insistência? Não sei. Não tenho as respostas. Sou apenas uma questionadora. Uma criadora eterna de perguntas. Mas e se eu começar a me preocupar em achar respostas ao invés de apenas exigi-las? Não podemos simplesmente sentar e requisitar tudo.
(Valéria C.)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Eu não controlo meus sonhos, mas mesmo assim, é realizado o meu desejo de sonhar com você todos os dias.
Você pode até tentar, persistir e insistir. Pode até descobrir o que se passa por minha mente. Mas tentar entendê-la, meu caro, é uma missão quase impossível. Requer talento, tempo e dedicação.
Não gosto de fechar meus olhos.Encarar o interior, escuro e profundo, de minhas pálpebras sempre resulta na formação de sua imagem em minha mente, junto a convicção de que você não me pertence, aliás, nunca me pertenceu.
Todos nós erramos. Isso não é segredo, mas fazer com que esse erro nunca mais ocorra, seria uma boa forma de conseguir seguir a diante.
Ás vezes me pergunto se esperar uma coisa é o certo a se fazer. Se eu não deveria desistir e encontrar algo melhor. Mas simplesmente eu acho que enquanto essas esperanças me fizerem sorrir, me fizerem bem, me sustentarem, eu vou continuar esperando.
(Valéria C.)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Frases

Você pode até criar uma imagem de mim, mas não poderá me submeter a ela.
Enquanto seu coração bate por uma pessoa, outra possui um coração batendo por você.
Quando um amor começa a trazer mais dor do que felicidade, eu começo a suspeitar que talvez nem seja mais amor.
Quando estamos em uma situação ruim, pensamos que nada pode piorar, e acontece justamente isso, talvez seja porque a vida quer nos testar, quer confirmar se somos fortes o bastante para aguentar, se somos decididos o bastante para não desistir.
(Valéria C.)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Tempo.

Eu deveria parar de pensar. Eu penso de mais. Crio hipóteses, situações e coisas do gênero. Isso enche minha mente de coisas inúteis. Não gosto. Embora, em alguns casos tenha-me vindo de forma produtiva. Imagino o quão tentador seria se eu pudesse parar de pensar demais.  Mas é claro que tal personalidade não me ajuda durante provas. Porque ai que entra o fator desvantagem! Eu penso demais em coisas que me importam. Que me perturbam. Ou que eu quero. Tanto faz. Mas ao mesmo tempo não quero me importar com tais assuntos, porém, por esse motivo, crio a mania de remoer o assunto por muito tempo.  Eu deveria, justamente, parar de escrever agora, mas sei que continuarei pensando no assunto. Afinal, porque eu redigi isso? Passar o tempo, talvez.
(Valéria C.)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Infância

      Posso afirmar que tive uma bela infância. Cheia de sonhos, aspirações, brincadeiras. Eu cometia erros, fazia coisas erradas, contudo, eu sabia que minha mãe estaria ali para me repreender e para me ensinar o correto. Eu gostava de me sujar, gostava de explorar, gostava de fazer amigos. Eu via o mundo de forma diferente. Tão estonteante. Tão magnífico. Tão perfeito. Tão... Divertido e Ingênuo. Eu usufruía cada minuto do meu dia, fazendo o que eu tinha vontade, embora algumas vezes eu me machucasse, eu tinha a certeza que eu chegaria em casa, minha mãe colocaria Mertiolate e sararia e, então, no dia seguinte eu poderia voltar a minha diversão contínua.
     Eu sorria com a simples visão do céu estrelado. Eu me impressionava com o beija-flor, batendo suas asas em uma velocidade surreal, enquanto pousava nas lindas flores do meu jardim. Eu adorava dias de domingo, quando eu acordava primeiro que meus pais e, então, eu ia acordá-los, mas antes, não me esquecia de acordar minha irmã, essa, ao contrário dos meus pais que me recebiam com um sorriso no rosto, me repreendia por ter a acordado. Mas eu não ligava. Eu sabia que depois tudo estaria resolvido.
       Eu adorava visitas de parentes, quando estes não faziam perguntas desconfortáveis. Eu era fascinada pela noite. Tentava ficar acordada ao máximo e, mesmo que estivesse cheia de sono, eu repreendia meus pais por me mandarem para cama naquela hora. Eu implicava com minha irmã por ela ter direito a certas coisas que eu não tinha, embora meus pais me explicassem o porquê, eu não conseguia entender, eu não me conformava.
          Eu temia trovões e tempestades, simplesmente achava que o mundo iria acabar. Os estrondos eram tão altos que eu chegava a tremer. Lembro quando eu acordava em plena madrugada, suada e ofegante. Acabara de ter um pesadelo e, andando pelo escuro da casa, eu seguia para o quarto de meus pais, onde estes me recebiam num conforto paternal que eu não trocaria por nada.
         Eu odiava assistir às brigas dos meus pais. Eu tinha medo. Eu me escondia para não ouvir nem ver. Contudo, depois de tudo, eu observava meus pais demonstrando amor novamente. Vendo o sorriso estampado em seus rostos, eu podia saber, eu tinha certeza que tudo estava bem.
          Lembro quando eu ficava doente. Meus pais cuidavam de mim com tanto carinho, demonstrando tanta preocupação, que eu podia sentir o conforto que isso me transmitia. Eu ficava zangada quando meus pais me proibiam de fazer alguma coisa, de ter alguma coisa, embora eu soubesse que eles só queriam meu bem.
           Odiava ter de me separar da minha mãe, quando esta me deixava na escola. A imagem do meu primeiro dia de aula continua firme em minha mente. Lembro que minha mãe acabara de me deixar aos prantos na sala de aula. Eu não queria que ela fosse. Eu achava tudo aquilo muito estranho. Eu me perguntava: “Porque minha mamãe está me deixando com essas pessoas desconhecidas?” Mas eu sabia que minha irmã estudava ali também, então, desesperada em encontrar alguém familiar, saí correndo em direção à sala de aula dela, onde, quando a vi, não hesitei em abraçá-la até que meus medos sumissem.
      Eu achava minha irmã um exemplo. Eu simplesmente achava que nada podia derrotá-la. Eu sonhava em crescer e me tornar igual a ela. Eu a admirava plenamente e, por causa disso, tentava sempre superá-la, implicando e isso a irritava profundamente. Brigávamos, tanto fisicamente quando verbalmente, mas, no fim, posso afirmar que em nenhum momento deixei de amá-la.
         Conheci amigos que participaram de momentos importantes da minha infância, mas que hoje não tenho tanto apego assim. Eu amava sair com meus pais. Lembro da primeira vez que fui a um parque de diversões de verdade. Eu olhava tudo como se não fosse desse planeta, era tão inacreditável. Aqueles brinquedos enormes e altos, girando, girando, girando. Ficava tonta só de pensar.
         Eu era ativa. Não gostava de ficar parada. Sempre queria estar fazendo algo e, eu podia estar na tarde mais tediosa que fosse, mas eu conseguia me divertir só de ter um jardim e alguns brinquedos.
         Eu amava o amanhecer. Adorava ver a vizinhança acordar. Todos se preparando para um novo dia. Adorava dar um beijo em meu pai quando este saía para trabalhar e, passava o dia todo esperando, ansiado sua volta.
         Eu amava viajar e matar as saudades dos meus primos. Brincava com eles a tarde toda até que minha mãe me chamasse. Lembro de como eu e minhas amigas fazíamos planos para quando crescêssemos. Achávamos a adolescência tão animada, tão divertida, tão tentadora. Antes eu preferia brincar ao ar livre à ficar em casa entretida em um computador. Eu achava meus pais os seres mais poderosos existentes, e o único que conseguia superá-los era Deus.
            Eu passava o ano todo ansiando pelo natal, onde aguentar acordada até meia noite era um obstáculo que, toda vez, eu, confiante, estava apta a passar. Mesmo não conseguindo, eu sabia que próximo ano eu teria outra chance. Lembro de ficar inquieta antes de dormir na véspera de natal. Eu ficava imaginando o que papai-noel traria para mim dessa vez. Lembro-me de minha mãe alertando-me de que ele só viria quando eu dormisse. E eu, ansiosa, não tardava a dormir à espera da tão esperada visita.
             Eu admirava os enfeites natalinos, as árvores de natal, e almejava, um dia, vivenciar o natal em um lugar com neve. Fim do ano era minha época predileta. Tão mágica! Eu pensava que nada de ruim podia acontecer nesse período. No ano-novo, eu superava o sono para assistir a tão estonteante queima de fogos de Copacabana. Sentada em frente à televisão, eu só levantava-me quando acabasse. E quando chegava o ano e todos ao meu redor brindavam felizes e entusiasmados, eu pensava que nada podia acabar com esse momento, que nada podia nos afetar. Aos meus olhos, minha vida era perfeita, embora, em certos momentos, eu duvidasse.
E hoje, já crescida, me pergunto: “Cadê essa magia?”
(valéria c.)